Escrito no dialeto koiné – o grego comum e rústico dos povos helenizados do Mediterrâneo e do Oriente Médio –, tantas vezes traduzido e comentado, o Sermão da Montanha não oferece dificuldades para ser vertido nas línguas modernas. Prestase mais a um exercício para o estudante de grego. Apesar disso, há pelo menos uma passagem – justamente a mais fundamental e decisiva – em que os tradutores parecem ter falhado: é aquela que se refere aos “pobres”, citados na chamada primeira bem-aventurança (Evangelho de Mateus 5: 3). A julgar pelas traduções modernas, é uma passagem que não apresenta problemas, porque todas elas a reproduzem praticamente da mesma forma, como se nota a seguir.
A tradução de João Ferreira de Almeida, feita no século XVII e até hoje difundida, com revisões, pela Sociedade Bíblica do Brasil, propõe para Mateus 5:3 o seguinte texto:

Bem-aventurados os humildes de espírito, porque deles é o reino dos céus”.

Em inglês, a famosa King James Version afirma:

Blessed are the poor in spirit: for their’s is the kingdom of heaven” (Bem-aventurados são os pobres em espírito: pois deles é o reino do céu).

Segundo Louis Segond, a frase em francês se expressa assim:

Heureux les pauvres en esprit, car le royaume des cieux est à eux” (Bem-aventurados os pobres em espírito, pois o reino dos céus é deles).

A antiga tradução espanhola de Casiodoro de Reina (1569), revisada em 1602 por Cipriano de Valera, diz:

Bienaventurados los pobres en espírito:porque de ellos es el reino de los cielos
(Bem-aventurados os pobres em espírito: porque deles é o reino dos céus).

O reformador Martin Lutero traduziu a passagem de maneira ligeiramente diferente:

Selig sind, die da geistlich arm sind; denn das Himmelreich ist ihr” (Bem-aventurados são os que são espiritualmente pobres;
pois o reino do céu é deles).

Finalmente, a versão em italiano disponibilizada no site do Vaticano sugere:

Beati i poveri in spirito, perché di essi è il regno dei cieli
(Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o reino dos céus).

Com pequenas variações – “pobres de espírito”, “pobres em espírito”, “pobres no espírito” ou “espiritualmente pobres” –, as traduções modernas apontam para uma mesma idéia, a de que, para ser bem-aventurado, é preciso ter um espírito não orgulhoso, mas pobre, humilde. Isso deu margem a que o texto de Mateus 5:3 fosse interpretado das mais diferentes formas – a mais radical delas, talvez, sendo a que identifica os “pobres de espírito” com os miseráveis, os materialmente pobres, os que não têm recursos para uma vida digna. Pode-se, porém, dar uma tradução diferente para Mateus 5:3.

No original, lê-se:

Maka&rioi oi( ptwxoi_ tw~| pneu&mati, o#ti au)tw~n e)stin h( Basilei&a tw=n ou0ranw~n.

Nessa frase, a expressão normalmente traduzida por “de espírito” ou “em espírito” é tw~| pneu&mati. A palavra pneu~ma, “espírito”, é um substantivo neutro singular, aqui escrita no caso nominativo (pneu~ma). Para ser traduzida como “de espírito”, precisaria estar grafada no caso genitivo, pneu&matoj. Para ser “no espírito”, deveria ser acompanhada da preposição en, geralmente presente no locativo grego, ficando assim: e)n tw~| pneu&mati.

Na minha opinião, deve-se ler essa passagem no caso instrumental, que se traduz por “pelo espírito”. Assim, a tradução para Mateus 5:3 pode ser: “Bem-aventurados os pobres pelo espírito, pois deles é o reino dos céus”. Acontece que, dessa forma, pode-se interpretar “espírito” como se referindo não ao espírito humano, mas ao Espírito Santo, que nos textos originais é grafado da mesma forma como quando esses textos se referem a um espírito qualquer, inclusive sem letra maiúscula, como ocorre, por exemplo, em (Mateus 4:1): “En- tão Jesus foi levado pelo espírito para o deserto”. Aqui o termo é u(po& tou~ pneu&matoj, no genitivo, porque o agente da voz passiva exige a preposição u(po& mais o genitivo. Nesse caso, a mensagem de Jesus se transforma significativamente.

Com a primeira bem-aventurança, ele talvez tenha querido dizer que bem- aventuradas são aquelas pessoas transformadas pelo Espírito Santo em pobres, em pessoas espiritualmente quebrantadas, que sentem que nada possuem e nada podem por si mesmas e que têm extrema necessidade de Deus. Isso está de acordo com toda a mensagem cristã – fundamentalmente uma mensagem de salvação espiritual, de vitória sobre o pecado, embora não esteja de nenhum modo desligada das carências terrenas do ser humano – e com o sentido mais profundo do Sermão da Montanha. Afinal, esse sermão só pode ser cumprido por cristãos que tenham passado por uma transformação operada pelo Espírito. Humanamente, ninguém é capaz, por exemplo, de dar a outra face para ser golpeada, de amar seu inimigo ou de ser luz do mundo. Isso é próprio somente daqueles que sofrem a operação do Espírito em suas vidas.

Não é à toa, portanto, que essa é a primeira bem-aventurança, da qual depende o cumprimento de todos os preceitos posteriores do Sermão da Montanha.Essa é a interpretação do teólogo britânico Martyn Lloyd-Jones,que chegou a essas conclusões mesmo pensando com base na tradução da King James Version, que cita “pobres em espírito”. Já o filósofo brasileiro Huberto Rohden percebeu o possível equívoco de tradução e considerou que a versão mais fiel é “pobres pelo espírito”. No entanto, Rohden interpreta “espírito” como sendo o espírito humano capaz, por si só, de se libertar da “escravidão material”. Para ele, “pobre pelo espírito” é aquele que “se libertou interiormente de todo o apego a qualquer objeto externo”.

Contra essa interpretação de Rohden, o texto de Mateus 5:3 parece referir-se efetivamente a uma transformação operada pelo Espírito Santo na vida do cristão, que, graças a isso, deixa a antiga condição de “velho homem” e passa a viver “em novidade de vida”, conforme dizem as Escrituras (Carta aos Romanos 6:4-6). Esse parece ser o mais profundo significa-o do Sermão da Montanha.